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Mostrando postagens de março, 2024

COLCHA DE RETALHOS

Carrego dentro de mim um pedaço de cada poema que li. Com eles eu me cubro quando tenho frio.

RELICÁRIO

Cada poema é um beijo tímido que sopro em tua direção... Não os vês... Mas um a um eles retornam a mim e alegremente os recolho no meu relicário de segredos invisíveis...

DE LONGE

Despencam de ti cataratas de poesia e encantamento, transbordando o mundo ao teu redor. Este poema  é uma foto que tiro de longe...

ABRACADABRA

Invoco o teu nome pelo menos uma vez por dia, ajoelhado no tapete de oração da minha alma... Teu nome é o abracadabra íntimo que transforma meu nada em poesia...

ARQUEOLOGIA

No mistério dos teus olhos, no contorno dos teus lábios, busco os versos escondidos que ainda não te escrevi...

BUSCA

Meio perdido diante do teu retrato, não sei ao certo o que busco... Mas a Poesia me encontra.

REENCONTRO

Infelizmente não lembro quando e onde nos conhecemos... Foi no Egito...? Foi em Roma...? Foi no Japão...? Foi na China...? Na Europa renascentista...? No Brasil imperial...? Nossas mãos já se tocaram ou sempre houve uma cortina separando nossas vidas? Felizmente nesta Vida depois de longa jornada  de escuridão e silêncio, não sei explicar... apenas aconteceu que senti: Um dia te reencontrei... E nesse dia bendito de Poesia e Transcendência nasceram asas em mim...

O MILIONÁRIO

Eu era um poeta de classe média baixa, com modesto patrimônio de uns poeminhas guardados... Mas você surgiu e eu comecei a acumular versos, a empilhar poemas numa caixa forte íntima. Me tornei um Tio Patinhas excêntrico: Meus poemas preferidos, minhas moedas da sorte, são os que escrevi pra você... Por sua causa me tornei um multimilionário acumulador de versos... No mundo real, meus versos não compram nada. No máximo, talvez, a simpatia daqueles com quem eu me comunico... Por ser até que haja alguém que desdenhe do que escrevo me julgando piegas ou cafona... Não faz mal. Sou um milionário  dessa cidade mágica que tenho aqui dentro e chamo de "Poemópolis"...

MOTO PERPÉTUO

Eu já te escrevi centenas de versos quase sempre  falando a mesma coisa... São anos a fio, abrindo minhas entranhas, expondo as nervuras de minha alma num interminável ritual que se retroalimenta. Sequer esboço cansaço... Por quê...? Por que apenas troco o guarda-roupa e um figurino tão diverso veste as mesmas ideias de sempre, sem nunca mudar a essência? A repetição não esgota? Quem se cansa do pai-nosso? Quem se cansa da ave-maria? Quem se cansa da água que se bebe todo dia? Meus poemas são variações sobre o mesmo tema porque esse tema é meu oxigênio... e quem se cansa de respirar?

EXÍLIO

Quando você foi embora, dobrei todas as lembranças, empacotei a memória e comprei uma passagem só de ida, sem saber o rumo que tomaria. Enquanto olhava o horizonte a Poesia aproximou-se e me tomou pela mão, dando-me um salvo-conduto pra viver em seu país.

ASA-DELTA

Caprichosa, a Poesia me leva para voar de asa-delta e nem me pergunta se tenho medo... Mas eu simplesmente vou...

DANÇA DAS CADEIRAS

Na dança das cadeiras da vida, a poesia trapaceia e sempre deixa um lugar reservado pra você...

CONCHA

Da concha das tuas mãos, brotou um manancial de Poesia... Mergulhei... e não consegui mais retornar...

ONDE?

Onde fica Pasárgada que procuro tanto e não encontro? Toco o espelho inutilmente à procura de uma passagem que não se abre... Ficará em algum ponto entre as estações da estrada de ferro, os túneis escuros do metrô, os vitrais do Mosteiro São Bento, as alamedas do Cemitério da Consolação, os corredores de Hogwarts? Enquanto não encontro o portal que me leve até Pasárgada, abro o livro de Poesia e vislumbro seus contornos através das janelas das estrofes... Pasárgada sorri por detrás do mistério.

NO DICIONÁRIO

Queria encontrar teu nome no dicionário, brilhando entre outras palavras... Queria te achar lá, com uma casualidade planejada, sem que as outras percebessem teu brilho singular... Amo as proparoxítonas, raras, envolvidas em mistério.. Teu nome carrega  o fascínio marcado na antepenúltima sílaba... Pronuncio teu nome escandindo cada sílaba pau...sa...da...men...te desfrutando dele como quem sente um aroma raro ou recita uma fórmula esotérica... Quase grito a primeira sílaba e as outras saem num sussurro, como quem esconde um segredo e se intimida  diante da própria indiscrição... Dicionários não trazem nomes próprios, de modo que só te encontro  no dicionário do sonho... aéreo... intangível... encadernado aqui dentro e que só eu posso consultar...

SOLIDÃO

SOLIDÃO Abro a porta do dicionário e as palavras ronronam para mim. Já que não posso te acariciar, faço carinho nelas.

CONTEMPLAÇÃO

O poema me incorpora e conduz meu espírito até o teu espelho, de onde te contemplo escondido... É pouco, mas me contento: Melhor te ver em espírito do que não ver nunca... Melhor ser possuído pelo poema do que ser possuído pelo vazio...

HERANÇA

Os pais, quando vão embora, deixam casas, fatias de chão.. Diversas coisas que os filhos administram e tentam multiplicar. Graças a Deus, meu pai não deixou nada disso. Deixou uma coleção de horizontes e memórias... Mas não só: Sem querer, deixou também uma cratera, um "grand canion" na minha alma, que não sei administrar e luto para que não cresça.

SINFONIA INACABADA

Dos teus lábios saiu uma névoa feita de esquecimento e silêncio, que atravessou o horizonte e me encontrou no meio de um poema. Desorientado, o poema caiu no chão  e se esfacelou... Tentei recolher os versos caídos, mas alguns se dissolveram no ar... Fui aos poucos me deslembrando de que e por que escrevi e me perdi de mim no meio da névoa. É por isso que este poema, cheio de vírgulas e reticências, ficou inacabado como a sinfonia de Schubert e não tem ponto final