CARTA DE AMOR N. 2

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
(Fernando Pessoa)
 
Não discuto com o poeta.
Sei que as cartas de amor
são realmente ridículas
e eu nunca te escrevi uma
porque não queria ser ridículo.
 
Tinha medo da pieguice,
da cafonice,
da repetição enfadonha,
do lugar-comum entediante...

Hoje não tenho mais:
Decidi enfrentar o medo.
Peguei o papel e a caneta
para escrever a carta de amor
que tanto tempo
tive medo de escrever...
Estou me assumindo ridículo...

Mas ainda estou travado...

O problema é que eu não sei
exatamente o que escrever.
As cartas de amor são explícitas
como quem expõe seu corpo na praia.
E eu sou exatamente o oposto:
Me acostumei à sutileza da penumbra...
Ando furtivo na calada da noite,
usando um capuz
e me esgueirando pela escuridão...
 
Não sei escrever cartas de amor.
 
Só sei sentir.
 
26.04.2026
 

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